Educação climática nas escolas: por que o clima já está fechando salas de aula no Brasil
Por Jaqueline — CEO da Comuniclima
A crise climática já não é um tema distante — ela está entrando pela porta da escola.
Enchentes, secas e ondas de calor vêm interrompendo aulas, afetando o aprendizado e ampliando desigualdades entre territórios. Diante desse cenário, cresce uma pergunta urgente: como garantir o direito à educação em um país cada vez mais exposto a eventos extremos?
A recente aprovação do PL 1236/2023 na Comissão de Constituição e Justiça marca um avanço importante.
O projeto:
- inclui a crise climática na Política Nacional de Educação Ambiental
- prioriza o tema no Fundo Nacional do Meio Ambiente
- reforça a conexão entre educação, prevenção e adaptação
Mais do que incluir o tema no currículo, o texto aponta para um desafio maior: aproximar a política pública da realidade vivida nas escolas.
Antes de virar conteúdo, o clima já virou interrupção.
- 242 milhões de estudantes impactados no mundo (2024)
- 1,17 milhão no Brasil
- 741 mil alunos afetados só no RS
- centenas de escolas fechadas na Amazônia por seca
Esses números mudam o debate.
Educação climática não é sobre o futuro — é sobre garantir o presente da aprendizagem.
Quando a escola para, o impacto vai além do calendário.
A crise climática gera:
- perda de aprendizagem
- sobrecarga de serviços públicos
- dificuldade de acesso à escola
- aumento da desigualdade territorial
Nesse contexto, educação climática passa a ser também política de proteção social.
Historicamente, temas urgentes entram no currículo como:
- projetos pontuais
- campanhas isoladas
- atividades complementares
Com o clima, isso não é mais suficiente.
Se a escola prepara para a vida real, ela precisa incorporar:
- formação de professores
- infraestrutura adequada
- protocolos de emergência
- materiais pedagógicos consistentes
Sem isso, a política vira discurso — e não prática.
Organizações como a UNESCO reforçam um ponto central:
Educação climática precisa desenvolver:
- conhecimento
- habilidades
- valores
- capacidade de agir
Ou seja: não é só entender o problema — é saber responder a ele no território.
Dados recentes mostram um cenário crítico:
- 25% das escolas sem área externa adequada
- apenas 35% com áreas verdes
Em um país mais quente, isso impacta diretamente:
- conforto térmico
- saúde
- qualidade da aprendizagem
Aqui, o clima revela desigualdades estruturais — não apenas ambientais.
A crise não afeta todos da mesma forma.
Ela atinge mais:
- periferias urbanas
- populações negras e indígenas
- comunidades em áreas de risco
- redes públicas mais vulneráveis
Por isso, educação climática precisa conectar:
ciência + território + vida cotidiana
E responder perguntas concretas:
- por que alguns bairros alagam mais?
- por que algumas escolas são mais quentes?
- por que certos territórios perdem mais dias de aula?
Há sinais importantes:
- mobilização nacional de escolas
- debate sobre justiça climática
- proposta de protocolo nacional de adaptação
- maior integração entre educação e clima
Mas o desafio permanece:
transformar diretriz em prática.
No Brasil de hoje, a pergunta não é mais se devemos falar de clima na escola.
A pergunta é:
o Estado vai tratar a educação climática como eixo real de proteção social — ou como mais um tema transversal que não chega na sala de aula?
A crise climática já faz parte da rotina escolar.
Transformar essa realidade em aprendizado — e em capacidade de ação — é um dos desafios mais urgentes do país.
Na Comuniclima, a gente acredita que isso começa com informação acessível, conexão com o território e participação das pessoas.
Porque entender o clima não é só aprender sobre o mundo.
É aprender a viver — e agir — dentro dele.
🔎 Referências
- CÂMARA DOS DEPUTADOS. Comissão aprova inclusão de mudanças climáticas nos temas da educação ambiental. 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1250065-COMISSAO-APROVA-INCLUSAO-DE-MUDANCAS-CLIMATICAS-NOS-TEMAS-DA-EDUCACAO-AMBIENTAL
- INEP. MEC e Inep contextualizam resultados do Censo Escolar 2024. 9 abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-escolar/mec-e-inep-contextualizam-resultados-do-censo-escolar-2024
- MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. MEC apoia sustentabilidade e resiliência climática nas escolas. 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/marco/mec-apoia-sustentabilidade-e-resiliencia-climatica-nas-escolas
- MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA. Fundo Nacional do Meio Ambiente. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/composicao/secex/dfre/fundo-nacional-do-meio-ambiente
- SENADO FEDERAL. Educação ambiental deve ser prioridade do Estado e da sociedade, aponta debate. 5 jun. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/06/05/educacao-ambiental-deve-ser-prioridade-do-estado-e-da-sociedade-aponta-debate
- UNESCO. Greening every curriculum. Disponível em: https://www.unesco.org
- UNICEF BRASIL. Quase 250 milhões de crianças e adolescentes tiveram os estudos interrompidos por crises climáticas em 2024, alerta UNICEF. 23 jan. 2025. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/quase-250-milhoes-de-criancas-e-adolescentes-tiveram-os-estudos-interrompidos-por-crises-climaticas-em-2024-alerta-unicef