Sem adaptação climática, chuvas intensas continuam causando mortes e prejuízos

O aquecimento global acelera o ciclo da água e aumenta a evapotranspiração. O excesso de umidade atmosférica pode gerar tanto chuvas intensas quanto secas prolongadas. Fonte: Revista Pesquisa FAPESP/ Marcos Pivetta.

Quando uma cidade alaga, a reação costuma ser imediata: decretos de emergência, imagens aéreas, doações, promessas de reconstrução. Dias depois, o tema sai do noticiário. Até a próxima enchente.

O problema é que esses eventos deixaram de ser pontuais. E todo início de ano este já é um evento esperado.

Dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), compilados pela Defesa Civil Nacional, mostram que o Brasil registrou mais de 25 mil desastres associados ao clima entre 1991 e 2023. Cerca de 70% deles estão ligados a chuvas intensas, enxurradas ou inundações. As perdas econômicas ultrapassam R$ 150 bilhões no período, além de milhares de mortes e milhões de pessoas afetadas.

Não se trata de um episódio isolado. É um padrão estrutural.

Por que a chuva está ficando mais intensa?

A explicação começa na física básica da atmosfera. Para cada 1°C de aumento na temperatura média do ar, a atmosfera pode reter aproximadamente 7% mais vapor d’água. Em termos simples: há mais “combustível” disponível para a formação de chuvas volumosas em pouco tempo.

O relatório mais recente do IPCC (AR6) indica que eventos de precipitação extrema aumentaram em frequência e intensidade em várias regiões do mundo desde meados do século XX. A América do Sul está entre as áreas com evidências consistentes dessa intensificação.

Representação do ciclo da água e sua interação com o relevo. O equilíbrio entre evaporação e precipitação é fundamental para prever eventos extremos e a saturação do solo em bacias hidrográficas. Fonte: Revista Pesquisa Fapesp/Rodrigo Cunha.

No Brasil, estudos do INPE apontam tendências de aumento de eventos extremos de chuva, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, ainda que com variações regionais importantes.

É sempre bom destacar que a ciência trabalha com probabilidade, não com causalidade direta para cada evento. Nem toda chuva intensa é resultado das mudanças climáticas. O que aumenta é a chance de que sistemas atmosféricos já existentes produzam volumes mais extremos. E isso altera o cálculo de risco.

O Sul do Brasil como alerta recente

O Sul sempre conviveu com ciclones extratropicais. Eles não são novidade. O que mudou foi a escala dos impactos.

Em setembro de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou uma sequência de eventos extremos associados a ciclones e sistemas de baixa pressão. Foram mais de 50 mortes e dezenas de municípios em situação de emergência. As enchentes históricas no estado afetaram mais de 2 milhões de pessoas. A infraestrutura de Porto Alegre foi parcialmente paralisada. Os prejuízos econômicos alcançaram cifras bilionárias.

Esses episódios combinaram quatro fatores críticos:

  • Chuvas acumuladas superiores a 200–300 mm em poucos dias
  • Ventos intensos
  • Solo já saturado por precipitações anteriores
  • Infraestrutura urbana vulnerável

Registros aéreos revelam a escala devastadora das inundações no Rio Grande do Sul, em 2024. Fonte: REUTERS/Diego Vara.

O fenômeno meteorológico não é novo, mas o contexto urbano, cuja infraestrutura é fundada em cimento, asfalto e concreto, amplifica o impacto.

Para que um evento natural se transforme em tragédia, três elementos precisam se combinar: perigo, exposição e vulnerabilidade.

1. Impermeabilização do solo

Em áreas centrais de grandes cidades brasileiras, mais de 70% da superfície pode estar impermeabilizada. A água que antes infiltrava no solo passa a escoar rapidamente.

O resultado é conhecido: sistemas de drenagem sobrecarregados, muitas vezes projetados com base em séries históricas menos intensas, não dão conta do volume atual.

2. Ocupação de áreas de risco

O déficit habitacional brasileiro é estimado em cerca de 5,8 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro. Parte dessa população ocupa encostas sujeitas a deslizamentos, várzeas inundáveis e margens de rios.

CEMADEN estima que milhões de brasileiros vivem em áreas classificadas como de risco alto ou muito alto para desastres naturais.

O risco climático, nesse caso, é também risco social.

3. Crescimento econômico e concentração de ativos

Cidades concentram infraestrutura crítica: hospitais, redes elétricas, sistemas de transporte, telecomunicações e cadeias logísticas. Quando uma região metropolitana é atingida, o impacto ultrapassa o bairro afetado e alcança cadeias produtivas inteiras. Isso ajuda a explicar por que as perdas econômicas têm crescido ao longo do tempo.

Recentemente, o Brasil construiu uma estrutura relevante de monitoramento e alerta:

·         O CPTEC/INPE realiza previsão meteorológica e modelagem climática

·         O CEMADEN monitora áreas de risco em tempo real

·         A Defesa Civil Nacional coordena a resposta emergencial

Sistemas de alerta precoce reduzem significativamente a mortalidade associada a desastres. Esse é um avanço concreto. Mas alerta não substitui planejamento urbano. Ele diminui o dano imediato, não elimina a vulnerabilidade estrutural. Por isso, adaptação climática é imprescindível.

Este mapa utiliza o sistema Köppen-Geiger para classificar as regiões do mundo de acordo com sua temperatura e volume de chuvas (dados de 1991 a 2020). Ele funciona como um “termômetro” da saúde do planeta: quando uma cor muda no mapa, significa que o clima daquela região se transformou. Fonte: Banco Mundial – Climate Change Knowledge Portal.

Atualizar normas de drenagem urbana considerando cenários climáticos futuros, criar parques lineares e áreas de retenção de água, restaurar margens de rios, integrar políticas habitacionais à gestão de risco, e investir em infraestrutura resiliente, são algumas das possibilidades para minimizar danos e ajustar sistemas naturais e humanos às mudanças climáticas atuais ou esperadas.

OECD estima que cada dólar investido em redução de risco pode evitar múltiplos dólares em reconstrução futura, ainda que os valores variem conforme metodologia e contexto, ou seja, adiar adaptação custa caro, em vidas e em orçamento público.

O que os dados indicam para o futuro?

Sob cenários de aquecimento contínuo, o IPCC projeta:

  • Maior frequência de eventos de chuva intensa
  • Intensificação de ondas de calor
  • Impactos desiguais, com maior peso sobre populações vulneráveis

Isso não significa que desastres sejam inevitáveis. Significa que o nível de risco depende das escolhas feitas agora.

O Brasil já possui dados científicos robustos, sistemas de monitoramento e conhecimento acumulado. O desafio não é falta de informação. É transformar evidência em planejamento de longo prazo.

Chuvas intensas e ciclones extratropicais sempre fizeram parte da climatologia brasileira. O que cresce é a combinação entre eventos potencialmente mais intensos, expansão urbana desordenada, infraestrutura sensível e desigualdades socioespaciais.

Enquanto a adaptação seguir sendo tratada como custo e não como investimento, a conta continuará chegando na forma de emergências recorrentes. E há anos é evidente que elas já não são exceção. São tendência.

Referências:

BRASIL. Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. Atlas Brasileiro de Desastres Naturais. https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/protecao-e-defesa-civil/atlas-brasileiro-de-desastres-naturais
IPCC – Working Group I. Capítulo sobre eventos extremos de precipitação. https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/

PIVETTA, Marcos. Aquecimento global acelera ciclo da água e aumenta evapotranspiração. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, 4 abr. 2024. https://revistapesquisa.fapesp.br/aquecimento-global-acelera-ciclo-da-agua-e-aumenta-evapotranspiracao/

RIO GRANDE DO SUL (Estado). Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, [s.d.]. Disponível em: https://www.defesacivil.rs.gov.br/.

WORLD BANK. Lifelines: The Resilient Infrastructure Opportunity. Washington, DC: World Bank, 2019. https://www.worldbank.org/en/topic/disasterriskmanagement/publication/lifelines-the-resilient-infrastructure-opportunity.