Educação climática começa no território: o que a escola precisa ensinar para um mundo que já mudou
A educação climática nas escolas ganha sentido quando conecta ciência, experiências dos estudantes e participação no território. Conheça cinco passos para transformar essa conexão em aprendizagem e ação coletiva.
Uma criança não precisa conhecer a expressão “ilha de calor urbana” para perceber que algumas ruas são quase impossíveis de atravessar sob o sol da tarde. Também não precisa dominar conceitos de hidrologia para saber qual esquina alaga primeiro quando chove forte.
Essas experiências não substituem o conhecimento científico. Mas podem ser a porta de entrada para compreendê-lo. É essa mudança de perspectiva que atravessa o primeiro episódio do Cria Clima, podcast da ComuniClima. Na conversa entre Rafael Bersan, da ComuniClima, e Paloma Carvalho, fundadora da Reciclo Social e da Sustentabilidade Jovem, a educação climática aparece menos como um conteúdo a ser acrescentado ao currículo e mais como uma forma de interpretar o mundo em transformação.
O episódio discute por que o tema ainda chega às escolas de maneira abstrata, a diferença entre estudar o clima apenas como fenômeno científico e compreendê-lo também como experiência social, o papel do território na aprendizagem e a participação dos jovens na construção de respostas.
Educação climática nas escolas: quando o clima entra pela porta
Em 2024, 10.541 escolas brasileiras (6,7% do total) suspenderam atividades em decorrência de eventos climáticos extremos. As interrupções alcançaram cerca de 2,51 milhões de matrículas, segundo dados do Censo Escolar divulgados pelo Inep.
O calor acrescenta outra camada ao problema. Um levantamento do Instituto Alana, Fiquem Sabendo e MapBiomas analisou 20.635 escolas de educação infantil e ensino fundamental nas capitais brasileiras. Aproximadamente 64% estavam localizadas, em 2023, em áreas cuja temperatura de superfície era pelo menos 1°C superior à média do perímetro urbano de sua capital. Ao mesmo tempo, 37,4% das escolas analisadas não tinham áreas verdes em seus terrenos.
Isso ajuda a deslocar a educação climática de uma ideia abstrata de “salvar o planeta” para perguntas muito mais próximas da vida escolar. Por que o pátio fica tão quente? Onde há sombra no caminho até a escola? Que ruas ficam intransitáveis depois de uma chuva forte? Quem consegue chegar à aula e quem fica isolado? Existe água suficiente nos dias de calor? Para onde ir em uma emergência?
São perguntas sobre clima, mas também sobre infraestrutura, planejamento urbano, saúde, mobilidade, desigualdade e direito à educação.
Saber que a crise existe não é o mesmo que saber ensiná-la
Existe também uma lacuna entre reconhecer a importância da educação climática e conseguir transformá-la em aprendizagem.
Um levantamento da UNESCO publicado em 2021 mostrou que apenas 53% dos referenciais curriculares nacionais analisados mencionavam as mudanças climáticas. Uma pesquisa com cerca de 58 mil professores de 144 países e territórios, também de 2021, revelou que menos de 40% se sentiam confiantes para ensinar sobre a gravidade do problema. Apenas cerca de um terço se considerava capaz de explicar seus impactos na própria região.
Esse dado ajuda a compreender uma das tensões levantadas no Cria Clima. Não basta aumentar a quantidade de informações climáticas oferecidas aos estudantes. É preciso discutir como esse conhecimento chega à escola.
Uma aula pode explicar efeito estufa, gases de efeito estufa, desmatamento e aumento da temperatura média global; conceitos indispensáveis. Mas o aprendizado ganha outra dimensão quando o estudante consegue relacionar esses processos à praça sem árvores, à enchente do bairro, à qualidade do ar durante uma temporada de queimadas ou às mudanças que observa na própria rotina.
O território, nesse sentido, funciona como uma espécie de laboratório aberto. O global ajuda a explicar o local. O local permite compreender o que os grandes números significam.
Como integrar a educação climática ao currículo
A Lei nº 14.926, de julho de 2024 alterou a Política Nacional de Educação Ambiental para incorporar explicitamente mudanças climáticas, biodiversidade, riscos e emergências socioambientais aos projetos pedagógicos da educação básica e superior. A legislação também reforça a participação das escolas em ações de prevenção, mitigação e adaptação climática.
Há uma nuance importante: a legislação brasileira determina que a educação ambiental seja uma prática integrada, contínua e permanente, em vez de ser tratada, como regra geral, como uma disciplina isolada.
Uma enchente pode ser discutida na geografia, mas também envolve matemática, ao interpretar volumes de chuva e mapas; ciências, ao compreender o ciclo da água; história, ao investigar como a cidade ocupou rios e várzeas; sociologia, ao observar quem vive nas áreas mais expostas; e língua portuguesa, ao trabalhar comunicação de risco e acesso à informação.
Educação climática pode atravessar o currículo porque a própria crise climática atravessa praticamente todas as dimensões da vida.
5 passos para levar o clima para dentro da escola
Começar não exige que a escola tenha um laboratório sofisticado, uma disciplina exclusiva ou um grande projeto financiado. Uma primeira experiência pode ser construída com aquilo que estudantes e professores já conhecem: o próprio território.
1. Comece pela experiência dos estudantes
Antes de apresentar conceitos, pergunte o que mudou no bairro e na escola. Há dias em que a sala fica quente demais? Alguma rua alaga? Falta água? Existem áreas sem sombra? O trajeto até a escola muda quando chove? As respostas ajudam a transformar um tema global em situações observáveis.
2. Construa um mapa climático da escola e do entorno
Um mapa impresso, uma imagem aérea ou mesmo um desenho coletivo pode servir como base. Os estudantes podem marcar locais muito quentes, árvores, áreas sombreadas, pontos de alagamento, córregos, terrenos impermeabilizados, locais de descarte de resíduos e trajetos considerados seguros ou problemáticos. O objetivo não é produzir um mapa técnico perfeito. É aprender a observar padrões e perguntar por que eles existem.
3. Cruze percepção e evidência
Depois do mapeamento, entram os dados. Temperatura, chuva, cobertura vegetal, qualidade do ar, histórico de enchentes ou alertas da Defesa Civil podem ser comparados às observações dos estudantes. Aqui ocorre uma aprendizagem importante: a percepção do território e os dados científicos não são concorrentes. Eles podem se complementar.
4. Transforme problemas em perguntas de investigação
Em vez de partir diretamente para uma campanha ou uma solução pronta, a turma pode escolher uma questão para investigar: por que uma parte do pátio é muito mais quente? O que aconteceria se houvesse mais árvores? Para onde vai a água quando chove? Quem é mais afetado pelo calor dentro da escola? Como um alerta de chuva forte chega às famílias? Diferentes disciplinas podem trabalhar a mesma pergunta a partir de seus próprios instrumentos.
5. Termine com uma ação possível
Nem todo projeto escolar precisa resolver um grande problema climático. Pode produzir um protocolo para dias de calor intenso, apresentar um diagnóstico à direção, propor áreas prioritárias para arborização, discutir rotas de deslocamento com a gestão escolar e a Defesa Civil ou criar materiais de comunicação para as famílias. O importante é fechar o ciclo: observar, investigar, compreender e agir.
Essa sequência ajuda a evitar dois extremos comuns da educação climática: tratar o assunto apenas como conteúdo teórico ou reduzir a discussão a recomendações individuais como economizar água, apagar a luz ou separar resíduos. Essas atitudes podem fazer parte da educação ambiental, mas a crise climática exige também compreender infraestrutura, decisões públicas, desigualdades e capacidade coletiva de adaptação.
Do aluno que recebe informação ao estudante que produz conhecimento
Outro ponto importante da conversa do Cria Clima é o lugar reservado aos jovens. Há uma diferença significativa entre pedir que estudantes memorizem comportamentos considerados “sustentáveis” e convidá-los a investigar o território, produzir perguntas, identificar riscos e discutir respostas possíveis.
A segunda abordagem muda a posição do estudante. Ele deixa de ser apenas receptor de informação e passa a participar da produção de conhecimento sobre o lugar onde vive.
Experiências de mapeamento participativo em escolas mostram justamente esse potencial. Quando crianças e adolescentes registram pontos de calor, falta de sombra, áreas de alagamento, dificuldades no trajeto ou problemas percebidos no entorno, passam a construir uma leitura própria e compartilhada do território.
Esses registros não substituem mapas técnicos, séries históricas ou bases ambientais. Mas acrescentam uma dimensão que muitas vezes não aparece nos bancos de dados: como o risco é vivido no cotidiano.
Educação climática não precisa transformar crianças em especialistas. Precisa ajudá-las a formular perguntas melhores sobre o lugar onde vivem, compreender relações entre causas e consequências, acessar informação confiável e reconhecer que decisões coletivas podem reduzir riscos.
Conhecer o risco também é uma forma de adaptação
Essa perspectiva ajuda a aproximar educação climática e adaptação. Uma comunidade que entende seus riscos, sabe interpretar alertas, reconhece pontos vulneráveis e consegue discutir prioridades está mais preparada para tomar decisões antes que um evento extremo se transforme em desastre.
Isso vale também para as escolas. Conhecer quais salas aquecem mais, onde a água se acumula, quais estudantes enfrentam maior dificuldade de deslocamento ou como as famílias recebem alertas são informações que podem orientar desde pequenas mudanças na rotina escolar até discussões com o poder público sobre infraestrutura e proteção.
O ponto central é que dados técnicos são fundamentais, mas não contam a história inteira. Um mapa pode indicar temperatura, relevo ou risco de inundação. Quem percorre aquele bairro diariamente sabe onde não há sombra, onde a água costuma subir primeiro, qual trajeto deixa de funcionar na chuva e quais pessoas encontram mais dificuldade para sair de casa.
Ensinar clima a partir dessa combinação entre ciência e experiência não reduz a complexidade do problema. Faz justamente o contrário: permite enxergá-la.
Por isso, a pergunta central do primeiro Cria Clima talvez seja menos sobre acrescentar um novo conteúdo ao currículo e mais sobre para que realidade estamos preparando crianças e jovens.
Uma escola que educa para o clima não ensina apenas o que está acontecendo com a atmosfera. Ajuda estudantes a compreender o território onde vivem, reconhecer desigualdades, interpretar riscos e perceber que adaptação também depende de conhecimento, participação e capacidade coletiva de agir. E essa aprendizagem já começa no caminho entre a casa e a escola.
Continue a conversa no Cria Clima
Na ComuniClima, conectamos escuta territorial, dados e conhecimento acessível para apoiar respostas coletivas aos riscos climáticos. A educação faz parte desse caminho: compreender o lugar onde vivemos é um passo para decidir como cuidar dele.
Assista ao primeiro episódio do Cria Clima, com Paloma Carvalho, e leve essa conversa para a sua comunidade escolar.