Calor extremo e seca no Brasil: como a crise climática já mudou o cotidiano das cidades

Se nos últimos meses a sensação foi de que o calor passou do limite e a seca deixou de ser apenas um “tempo ruim”, isso não é impressão. Os dados mostram que o Brasil já vive uma nova realidade climática.

Ondas de calor mais frequentes, estiagens prolongadas e pressão sobre cidades, saúde pública e abastecimento de água estão se tornando parte da rotina. O debate já não é mais sobre eventos isolados. É sobre uma mudança estrutural no clima brasileiro.

Na Comuniclima, entendemos que traduzir esses dados de forma acessível é parte essencial da adaptação climática. Informação clara ajuda pessoas, comunidades e gestores a se prepararem melhor para os impactos que já estão acontecendo.

O Brasil está ficando mais quente

Os dados recentes mostram uma tendência contínua de aumento das temperaturas no país.

Segundo o Inmet, 2024 foi o ano mais quente da série histórica brasileira desde 1961, com temperatura média de 25,02°C, quase 0,8°C acima da média histórica. Já 2025 ficou entre os anos mais quentes já registrados.

Quando anos consecutivos começam a ocupar o topo desse ranking, o cenário deixa de ser exceção. O extremo passa a fazer parte do cotidiano.

Em 2025, o Cemaden registrou sete ondas de calor no Brasil. Algumas cidades enfrentaram temperaturas históricas:

  • Quaraí (RS): 43,8°C
  • Rio de Janeiro: máximas entre 42°C e 44°C
  • São Paulo: 37,2°C em dezembro, maior marca para o mês em 64 anos

Isso afeta diretamente a vida urbana.

O calor intenso aumenta o consumo de energia, sobrecarrega sistemas urbanos e amplia riscos à saúde. Muitas cidades brasileiras foram planejadas para um clima que já não existe mais.

A seca também virou parte da rotina

O avanço da seca no Brasil acompanha essa mesma tendência.

Em fevereiro de 2026, mais da metade do território brasileiro ainda enfrentava algum nível de seca.

Os números dos últimos anos ajudam a entender a gravidade:

  • 503 municípios chegaram à condição de seca severa ou extrema em 2025
  • Oito estados registraram seca em 100% do território
  • Em 2024, mais de 4.700 cidades brasileiras enfrentaram algum grau de seca

Além do impacto ambiental, a estiagem afeta:

  • abastecimento de água;
  • produção de alimentos;
  • geração de energia;
  • economia local;
  • qualidade de vida da população.

O Sistema Cantareira, por exemplo, operou em janeiro de 2026 com apenas 23% do volume útil total, no pior nível para o período desde a crise hídrica de 2014/2015.

Como o calor extremo impacta a saúde

O Ministério da Saúde reconhece que ondas de calor estão sendo agravadas pelas mudanças climáticas.

Os efeitos vão muito além do desconforto térmico.

Entre os principais impactos estão:

  • desidratação;
  • aumento de doenças cardiovasculares;
  • agravamento de problemas respiratórios;
  • exaustão térmica;
  • aumento da mortalidade entre grupos vulneráveis.

Um estudo realizado no Rio de Janeiro mostrou que a exposição prolongada ao calor intenso elevou significativamente o risco de morte entre idosos.

Esses efeitos não atingem todas as pessoas da mesma forma.

Populações periféricas, idosos, crianças e trabalhadores expostos ao sol tendem a sofrer mais com os impactos climáticos. Por isso, falar de clima também é falar de desigualdade e justiça climática.

O impacto do calor extremo no trabalho e na economia

O calor extremo também afeta produtividade, renda e economia.

Segundo estudo citado pela Fundacentro, o estresse térmico ocupacional reduz capacidades físicas e cognitivas e pode gerar perdas econômicas equivalentes a cerca de 2% do PIB brasileiro até 2100.

No campo, ondas de calor e seca prolongada aumentam riscos para:

  • soja;
  • milho;
  • feijão;
  • arroz irrigado;
  • pecuária.

Isso significa impactos diretos no preço dos alimentos, na segurança hídrica e na estabilidade econômica.

O desafio das cidades diante da crise climática

O problema não é apenas climático. É também urbano.

Boa parte das cidades brasileiras ainda possui:

  • pouca arborização;
  • excesso de concreto;
  • drenagem insuficiente;
  • desigualdade no acesso à infraestrutura;
  • baixa adaptação para eventos extremos.

Na prática, isso intensifica enchentes, ilhas de calor e vulnerabilidades sociais.

Por isso, cresce a demanda por soluções de inteligência climática participativa, dados territoriais e sistemas de prevenção mais acessíveis.

A adaptação climática depende cada vez mais de informação local, participação comunitária e respostas rápidas.

 

O extremo virou rotina. E agora?

O Brasil já não vive apenas eventos climáticos isolados.

Calor extremo e seca prolongada fazem parte de uma transformação maior que impacta saúde pública, planejamento urbano, infraestrutura, economia e proteção social.

A questão agora não é mais se esses eventos vão continuar acontecendo.

Eles vão.

O desafio é decidir como cidades, governos, empresas e comunidades vão responder a essa nova realidade.

Na Comuniclima, acreditamos que enfrentar os riscos climáticos exige informação acessível, participação coletiva e conexão entre dados e território.

Porque adaptação climática também começa pela forma como a informação chega às pessoas.

Referências:

  • INMET. Ano de 2025 foi o sétimo mais quente no Brasil desde 1961. Disponível em:
    https://portal.inmet.gov.br/noticias/ano-de-2025-foi-o-s%C3%A9timo-mais-quente-no-brasil-desde-1961
  • ANA. Seca fica mais branda no Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sudeste. Intensidade do fenômeno fica estável no Sul segundo atualização do Monitor de Secas. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/seca-fica-mais-branda-no-centro-oeste-nordeste-norte-e-sudeste-intensidade-do-fenomeno-fica-estavel-no-sul-segundo-atualizacao-do-monitor-de-secas
  • CEMADEN. Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025. Disponível em: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/estado-do-clima-extremos-de-clima-e-desastres-no-brasil/estado-do-clima-extremos-de-clima-e-desastres-no-brasil-02-2026/relatorioclimaextremosdesastresbrasil2025.pdf
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ondas de calor. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/o/ondas-de-calor
  • FIOCRUZ. Pesquisa relaciona calor extremo à mortalidade no Rio.
  • https://fiocruz.br/noticia/2025/02/pesquisa-relaciona-calor-extremo-mortalidade-no-rio
  • FUNDACENTRO. Calor extremo pode reduzir produtividade e gerar perdas bilionárias no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/fundacentro/pt-br/comunicacao/noticias/noticias/2025/dezembro/calor-extremo-pode-reduzir-produtividade-e-gerar-perdas-bilionarias-no-brasil
  • WMO. Earth’s climate swings increasingly out of balance. Disponível em: https://wmo.int/news/media-centre/earths-climate-swings-increasingly-out-of-balance
  • MMA. Governo do Brasil lança Plano Clima, principal instrumento para planejar enfrentamento à crise climática no país até 2035. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/governo-do-brasil-lanca-plano-clima-principal-instrumento-para-planejar-enfrentamento-a-crise-climatica-no-pais-ate-2035
  • MMA. Governo do Brasil inicia elaboração do PNAR, plano para enfrentar aumento do calor extremo. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/governo-do-brasil-inicia-elaboracao-do-pnar-plano-para-enfrentar-aumento-do-calor-extremo